top of page

Quem é Capilé, artista que mais se apresentou no São João de Campina Grande

  • Foto do escritor: Lino
    Lino
  • 26 de set. de 2025
  • 5 min de leitura

Texto: Matheus Lino (@matheuslinocg) | Publicado também no Portal UOL.

Capilé se apresenta no São João de Campina Grande em 2025 [Foto: Arte Produções]
Capilé se apresenta no São João de Campina Grande em 2025 [Foto: Arte Produções]

Não é à toa que as festas juninas de Campina Grande, na Paraíba, recebem o título de O Maior São João do Mundo. A 41ª edição do evento, que vai até 6 de julho, contou com atrações de peso: Alceu Valença, Elba Ramalho, João Gomes, Jorge e Mateus, Alok, Wesley Safadão, Simone Mendes, Matuê. Mas ninguém se apresentou mais vezes nesse palco que Lenilson Costa de Macedo, 62, ou apenas Capilé.


De aspirante a jogador de futebol a músico, cantor e compositor, o 'Rei da alegria', como também é conhecido, marcou a música paraibana sendo precursor nos primeiros carnavais fora de época de Campina Grande, sua cidade natal, mas principalmente por seu papel marcante no São João, sendo o compositor, inclusive, da música tema da festa.



Em junho de 2025, ele surpreende ao anunciar que esteve em tratamento quimioterápico para combater um câncer de intestino, o que não o impediu de encantar o público na noite do dia 22 de junho. Ao TOCA, Capilé fala de música, São João, vida e tradição.


TOCA/Lino - Você se apresenta no São João há mais de 40 anos. Como vê a festa nos dias atuais?


Capilé - O Brasil e as capitais estão descobrindo o São João. Está todo mundo investindo. Natal fez uma programação gigantesca, tive oportunidade de estar por lá. São Paulo está fazendo o São João fora de época, o 'São João Paulo'? mas Campina é como o Maracanã. Até têm estádios mais modernos no mundo, mas ele é simbólico. O São João de Campina Grande e o Parque do Povo são simbólicos. Todo artista, por grande que ele seja, quer tocar.


Mas a maior grandeza é o povo de Campina. Não sou eu, não é o prefeito, não é o poder público, mas sim as pessoas de Campina Grande, que vestem essa camisa. E eu sou só uma dessas. Um campinense apaixonado, que quer ver o São João cada vez maior.


Como começou a sua relação artística com o São João?


Foi em 1983, quando Ronaldo [Cunha Lima, prefeito na época] lançou "O Maior São João do Mundo". Muita gente não sabe, mas o São João só existia no dia 12, que era o dia de Santo Antônio, aí dia 23 e 24, São João, e São Pedro. Campina Grande foi a primeira cidade a criar 30 dias de festa. Ali foi a nossa grande virada de chave.


Antes disso, em Campina aconteciam as quadrilhas e onde hoje é o Parque do Povo ficavam os artistas locais. Já os artistas nacionais vinham para as casas de show: Forrock, Spazzio, Clube Campestre, Clube dos Caçadores? e o "Forró do Entra e Sai", que também recebia artistas como Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Elba [Ramalho]. Minha estreia também foi lá.


Mas o seu sonho sempre foi ser artista?


Tem aquela frase: "a gente é para o que nasce". Todos os meus sonhos eram construídos em cima de jogar futebol. A partir de 15 anos eu já tinha o salário do futebol. Naquele tempo era muito difícil, mas cheguei a jogar no Campinense e no Treze [principais equipes profissionais da cidade]. Fiz ainda teste no Vasco. Até passei, mas eu vim embora com saudade de casa. É porque o que Deus tinha escrito pra mim era outra coisa.


Comecei a tocar por um acaso total. Fui estudar com um amigo, ele tocou uma música e eu cantei. Ele disse "rapaz, tu é afinado!" Aquilo mudou a minha vida por completo.


Como isso evoluiu para você ser de fato um artista?


Com 20 anos, eu já tinha deixado de jogar futebol e ingressado na música, tocando MPB nos bares. No final dos anos 70 foi o grande boom da MPB. O 'piseiro' da época era a MPB.


Até que em 1985 fui convidado pra fazer a música tema do nosso Maior São João do Mundo, "Campina Grande, capital mundial do forró". Daí começou a minha inclusão no forró. Apareceu a oportunidade de gravar a música e um disco, que naquela época era muito difícil.


Lancei o disco em cima de um caminhão, porque ainda não tinha palco no Parque do Povo.



O que o São João representa para você hoje?


Para mim é uma satisfação, uma gratidão muito grande. Porque o São João foi quem me deu régua, me deu compasso. Me fez ultrapassar as fronteiras da Paraíba, e eu só tenho a agradecer a Deus.


O São João? eu me misturo com ele. Tem hora que eu me sinto filho, tem hora que me sinto pai. Quando ele nasceu, eu era uma criança e a gente ficou acompanhando essa evolução. Eu vou também crescendo juntamente com o São João. 


Em todo esse tempo, quais são os momentos que mais te marcaram neste evento?


Um dos momentos mais marcantes foi em um show em 1987, na Pirâmide, quando eu lancei o disco "Haja Coração". Eu disse assim: "Acho que eu virei cantor a partir de agora". Quando fui sair, foi preciso um corredor de polícia. Naquele tempo não tinha selfie, mas todo mundo queria pegar autógrafo. Desde 87 que eu montei banda e de lá pra cá, consigo manter as pessoas trabalhando comigo.


Nos últimos anos surgiu um grande debate sobre a presença de outros gêneros musicais no São João. O que você acha disso?


Campina Grande é uma cidade conhecida pelo 'muído' [gíria para confusão, polêmica].  Se não tiver 'muído' não é Campina. Em 57 ou 58, Luiz Gonzaga já estava reclamando que o São João estava ficando muito moderno. Ele lançou a música "São João diferente" e diz que era melhor antigamente. Quando se parar de reclamar é porque ficou 'certo demais' Quando fica 'certo demais', dá problema.


Tem que ter sempre essa discussão. É o mundo em movimento. O advento da internet veio e mudou tudo. Gilberto Gil falou que o mundo era pequeno, que cabia dentro de uma antena parabólica, imagina agora! O que se toca aqui, toca em Nova Iorque, toca no Rio de Janeiro. O mundo hoje é um lugar só.


Nos últimos dias, justamente no mês junino, você anunciou o fim de um tratamento contra o câncer. Como isso impactou a sua vida e arte?


É um paradoxo, mas foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Um freio cármico, que eu recebi do criador. Eu precisava desse freio pra entender várias coisas com um olhar positivo sobre tudo, inclusive sobre esse próprio processo que tive.


Se Deus está me dando essa oportunidade, quero fazer disso um propósito. Levar esclarecimento para as pessoas sobre o câncer de intestino, do cólon, que foi o que eu tive. É o segundo mais frequente hoje e as pessoas não sabem nem o nome do exame que se faz, que é a colonoscopia. E eu quero levar isso para as pessoas.


Comentários


bottom of page